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Lembro-me que poucos anos atrás a Fifa resolveu instituir o "Gol de Ouro". Este artifício terminaria o embate logo que uma das equipes marcassem um tento durante a prorrogração (também chamado de tempo extra). Testado primeiro em competições menores, foi utilizado durante as Copas de 1998* e 2002*. Após críticas, a instituição organizadora do futebol mundial recuou e resolveu pro fim a apelidada 'morte súbita'.
Sempre fui contra esta modificação na regra. Fiquei surpreso quando a Fifa não apenas aprovou como colocou em prática nas Copas uma regra, para mim, claramente antidesportiva. Porque não permite reação ao adversário, amplia a possibilidade de interferência no resultado (um pênalti mal marcado decidiria uma classificação diretamente) e faz com que as equipes atuem de forma covarde durante o tempo extra, visto que o mínimo erro seria fatal.
Argumentava sempre que, caso esta regra prevalecesse, ela encerraria a chance de vermos espetáculos de superação e brio como o embate entre Itália e Alemanha Ocidental durante a semifinal da Copa de 1970. Naquela ocasião, após o empate no tempo regulamentar por 1 a 1, as equipes proporcionaram ao mundo 30 minutos de futebol clássico, disputado, sem esmorecimento, com vontade e superação na luta pela vitória até as raias da exaustão e sofrimento. Beckenbauer, por exemplo, disputou todo tempo extra com o ombro deslocado e enfaixado, mas com a mesma elegância e raça habitual. A Itália venceu por 3 a 2 na prorrogração, completamente exaurida, e seu cansaço físico e mental foi bem aproveitado pelo Brasil na final.
Sempre julguei esta a melhor de todas as partidas dos mundiais. Não apenas pelos sete gols, mas principalmente pela coragem das equipes de em momento algum retrocederem para garantir resultado, que por vezes agraciava Alemanha e outras a Itália. Hoje, tenho dúvidas a respeito desta opção. Como os deuses do futebol são caprichosos, outra partida entre italianos e germânicos vem dividir meu coração. Outra semifinal, outra decisão na prorrogração, dois belos gols em quatro minutos e todo reconhecimento da torcida alemã à sua briosa equipe. Emocionante!
Marcelo Lippi mostrou aos Parreiras e Pekermans da vida que, não basta possuir talentos em seu time pra vencer, é necessário saber fazê-los jogar da maneira certa e na hora certa. Saber quem substituir e a hora de substituir. Parreira o fez tardiamente. Pekerman precipitadamente. Lippi esperou a hora do bote. Poderia ter falhado, isto é do futebol, mas fez a leitura correta. Precisava definir o jogo antes das penalidades, pois dificilmente venceria a Alemanha nas cobranças fatais.
A Itália foi inteligentíssima desde o primeiro minuto de jogo. Com Totti posicionado como um armador avançado e Luca Toni isolado no ataque, avançaram toda a equipe para sufocar a saída de bola do adversário. Assim impediram que os alemães, apoiados pela torcida, os encurralassem logo no início do jogo, como fizeram contra as outras equipes. Apaziguado este ímpeto assumiram o controle do meio campo, ficando a maior parte do tempo com a posse de bola, graças ao cinturão formado por Camaronesi, Perrota, Pirlo e Gatusso. Os alemães preocupavam-se com Totti mas era Pirlo quem conduzia a bola para o ataque, além dos laterais - Grosso e Zambrotta - que desfilavam com liberdade pelas alas.
Com o avanço do jogo, Lippi foi moldando sua equipe para as circunstâncias futuras. Colocou Gilardino para ter velocidade no contra ataque mas não abriu mão da disputa pelo meio. Preferiu sacrificar Luca Toni. A disputa acirrada no meio ocasionou escassez de oportunidades de gol de lado a lado, a prorrogração se tornou inevitável. Então, a Itália resolveu partir para tentar a vitória. Com outro atacante - Iaquinta - foi possível pressionar a defesa alemã, criar opções de ataque e aproximar-se da vitória. Como o gol tardava a sair, a cartada decisiva foi a entrada de Del Piero. Com um trio ofensivo descansado para atacar e aproveitando as brechas da defesa alemã que não conseguia se recompor com tanta facilidade graças ao desgaste físico, dominaram o tempo extra - correram alguns riscos, é verdade - e foram recompensados com dois gols nos quatro minutos finais. Dois belíssimos gols, frutos do talento, da aplicação e da pujança defensiva. A griffe do futebol italiano.
Que bom que o Gol de Ouro foi abolido! Pudemos nos regozijar com aquela pintura que foi o gol de Del Piero! Um contra ataque veloz e técnico, uma cereja neste maravilhoso bolo que foi esta semifinal em Dortmund. Ainda não decidi se esta partida foi superior ou não àquela de 1970 (que assisti em VT) e isto pouco importa afinal, o importante é que tenhamos, sempre que possível, prorrogações de ouro como estas.
*Nota do blogueiro: Jogos decididos pelo Gol de Ouro em Copas:
1998 -França 1X0 Paraguai
2002 - Senegal 2X1 Suécia, Coreía do Sul 2X1 Itália, Senegal 0X1 Turquia
criado por frankmiranda
02:31:41