Terno de Branco

Espaço de divagações, matérias jornalísticas, artigos e baboseiras ao humor do dono. Colaborações apenas de amigos próximos ou quem se dispor a me pagar uma gelada.

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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2006

05.07.06

Prorrogação de Ouro

Lembro-me que poucos anos atrás a Fifa resolveu instituir o "Gol de Ouro". Este artifício terminaria o embate logo que uma das equipes marcassem um tento durante a prorrogração (também chamado de tempo extra). Testado primeiro em competições menores, foi utilizado durante as Copas de 1998* e 2002*. Após críticas, a instituição organizadora do futebol mundial recuou e resolveu pro fim a apelidada 'morte súbita'.

Sempre fui contra esta modificação na regra. Fiquei surpreso quando a Fifa não apenas aprovou como colocou em prática nas Copas uma regra, para mim, claramente antidesportiva. Porque não permite reação ao adversário, amplia a possibilidade de interferência no resultado (um pênalti mal marcado decidiria uma classificação diretamente) e faz com que as equipes atuem de forma covarde durante o tempo extra, visto que o mínimo erro seria fatal.

Argumentava sempre que, caso esta regra prevalecesse, ela encerraria a chance de vermos espetáculos de superação e brio como o embate entre Itália e Alemanha Ocidental durante a semifinal da Copa de 1970. Naquela ocasião, após o empate no tempo regulamentar por 1 a 1, as equipes proporcionaram ao mundo 30 minutos de futebol clássico, disputado, sem esmorecimento, com vontade e superação na luta pela vitória até as raias da exaustão e sofrimento. Beckenbauer, por exemplo, disputou todo tempo extra com o ombro deslocado e enfaixado, mas com a mesma elegância e raça habitual. A Itália venceu por 3 a 2 na prorrogração, completamente exaurida, e seu cansaço físico e mental foi bem aproveitado pelo Brasil na final.

Sempre julguei esta a melhor de todas as partidas dos mundiais. Não apenas pelos sete gols, mas principalmente pela coragem das equipes de em momento algum retrocederem para garantir resultado, que por vezes agraciava Alemanha e outras a Itália. Hoje, tenho dúvidas a respeito desta opção. Como os deuses do futebol são caprichosos, outra partida entre italianos e germânicos vem dividir meu coração. Outra semifinal, outra decisão na prorrogração, dois belos gols em quatro minutos e todo reconhecimento da torcida alemã à sua briosa equipe. Emocionante!

Marcelo Lippi mostrou aos Parreiras e Pekermans da vida que, não basta possuir talentos em seu time pra vencer, é necessário saber fazê-los jogar da maneira certa e na hora certa. Saber quem substituir e a hora de substituir. Parreira o fez tardiamente. Pekerman precipitadamente. Lippi esperou a hora do bote. Poderia ter falhado, isto é do futebol, mas fez a leitura correta. Precisava definir o jogo antes das penalidades, pois dificilmente venceria a Alemanha nas cobranças fatais.

A Itália foi inteligentíssima desde o primeiro minuto de jogo. Com Totti posicionado como um armador avançado e Luca Toni isolado no ataque, avançaram toda a equipe para sufocar a saída de bola do adversário. Assim impediram que os alemães, apoiados pela torcida, os encurralassem logo no início do jogo, como fizeram contra as outras equipes. Apaziguado este ímpeto assumiram o controle do meio campo, ficando a maior parte do tempo com a posse de bola, graças ao cinturão formado por Camaronesi, Perrota, Pirlo e Gatusso. Os alemães preocupavam-se com Totti mas era Pirlo quem conduzia a bola para o ataque, além dos laterais - Grosso e Zambrotta - que desfilavam com liberdade pelas alas.

Com o avanço do jogo, Lippi foi moldando sua equipe para as circunstâncias futuras. Colocou Gilardino para ter velocidade no contra ataque mas não abriu mão da disputa pelo meio. Preferiu sacrificar Luca Toni. A disputa acirrada no meio ocasionou escassez de oportunidades de gol de lado a lado, a prorrogração se tornou inevitável. Então, a Itália resolveu partir para tentar a vitória. Com outro atacante - Iaquinta - foi possível pressionar a defesa alemã, criar opções de ataque e aproximar-se da vitória. Como o gol tardava a sair, a cartada decisiva foi a entrada de Del Piero. Com um trio ofensivo descansado para atacar e aproveitando as brechas da defesa alemã que não conseguia se recompor com tanta facilidade graças ao desgaste físico, dominaram o tempo extra -  correram alguns riscos, é verdade - e foram recompensados com dois gols nos quatro minutos finais. Dois belíssimos gols, frutos do talento, da aplicação e da pujança defensiva. A griffe do futebol italiano.

Que bom que o Gol de Ouro foi abolido! Pudemos nos regozijar com aquela pintura que foi o gol de Del Piero! Um contra ataque veloz e técnico, uma cereja neste maravilhoso bolo que foi esta semifinal em Dortmund. Ainda não decidi se esta partida foi superior ou não àquela de 1970 (que assisti em VT) e isto pouco importa afinal, o importante é que tenhamos, sempre que possível, prorrogações de ouro como estas.

*Nota do blogueiro: Jogos decididos pelo Gol de Ouro em Copas:

1998 -França 1X0 Paraguai

2002 - Senegal 2X1 Suécia, Coreía do Sul 2X1 Itália,  Senegal 0X1 Turquia



  • criado por  frankmiranda criado por frankmiranda
  • Postado em 02:31:41

04.07.06

Recordes

Um dos pontos mais exaltados pela imprensa, que certamente envaideceu a muita gente, foi a quebra de vários recordes por esta seleção brasileira. Como odeio estatísticas vazias, afinal números sozinhos não explicam nada, prefiro tripudiar um pouco da nossa desgraça na eliminação e revelar - em primeira mão - as  marcas que a imprensa não revela.

Cafu: Pior jogador a disputar mais partidas de Copa do Mundo. Nunca fez um gol, nem jogou bem. Disputou quatro Copas, três finais e coçou o nariz 3654 vezes. Único jogador a lembrar da esposa na hora de levantar a taça, o que o tornou o melhor marido de todas as copas. Já havia sido o jogador a participar de mais peneiras de clube antes de se tornar profissional. A persistência é dele mas o sofrimento é nosso.

Ronaldo: Jogador mais gordo a fazer 15 gols em Copas. Também foi o que sofreu com mais moléstias: Convulsões, bolhas no pé, joelho podre, contusões musculares, perebas, banzo, uma terrível queda de cabelo que o deixou parecido com o Cascão e a pior de todas - incurável - uma feiúra que não há milhões de dólares que resolva. Mas em campo até que ele não fez tão feio.

Fred: Jogador a fazer o gol mais rapidamente após sua estréia. Parece que tamanha rapidez não agradou, pois não teve mais chances após isso, ficando com o recorde também de participação mais rápida. Quem mandou fazer gol logo?

Lúcio: Zagueiro que jogou mais tempo corrido sem cometer uma única falta [recorde anterior era de Gamarra]. Isso fez dele nosso melhor jogador na Copa. Por si só, isto explica a pífia participação brasileira. Foi também o zagueiro que mais avançou ao ataque (correu 7893 metros de forma atabalhoada), e que mais cuspiu em campo (234 escarradas).

Ronaldinho Gaúcho: Pior melhor jogador do mundo em campo. Gastou US$ 39.000,00 em cremes para cabelo e mais US$ 5.000,00 em apetrechos (tiaras, piranhas e elásticos). Graças a este investimento, perdeu o posto de cabelo mais feio do mundial para o togolês Adebayor. Pode recuperar o posto em 2010.

Roberto Carlos: Maiores coxas de todos os tempos. Mais de um metro. Também o maior ego, o maior número de bicicletas furadas (três) e abaixadinhas para ajeitar a meia (trinta e duas). A última foi na hora do gol de Henry que eliminou o Brasil. Oxalá que tenha sido a última mesmo.

Parreira: Disputou cinco Copas do Mundo. Fez questão de ressaltar seus recordes de partidas disputadas (25 jogos) , de ter ganhado duas - uma como preparador físico e outra como treinador - mas não citou que foi o único treinador a ser demitido durante a competição [Arábia Saudita na Copa de 1998]. Pelo que fez neste mundial, poderia ter repetido tal feito.

Zagalo: Maior recordista entre os recordistas. Espécie de múmia ambulante, único tetracampeão autêntico vivo (precariamente diga-se de passagem), ganhou como jogador, treinador e dirigente. Espécie de Gastão do futebol, maior sortudo de todos os tempos, atribui suas glórias a Santo Antônio e ao místico número 13. Brasil e França: 13 letras. Parreira burro: 13 letras. Cai fora Zagalo: 13 letras.

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  • Postado em 12:58:05

03.07.06

Meu amigo Zizou

Eu adoro meu amigo Zinedine Zidane. Nossa amizade teve início curiosamente um pouco antes da final da Copa da França, no dia 9 de julho de 1998. Conhecemo-nos neste dia. Calma. Explico-me.

Meu pai resolveu presentear-nos com um Husky Siberiano. Eu e minha irmã ficamos admirados e logo fomos conquistados por aquele montinho de pêlos cinzas e brancos de belos olhos azuis. Faltava-lhe um nome. Na falta de uma boa sugestão, uma idéia ou uma inspiração, tive um estalo. Porque não batizarmos nosso cãozinho com o nome do craque da final da copa? Aquela altura, com o Brasil favoritíssimo após a semifinal emocionante contra a Holanda tudo indicava que o pequeno Husky se chamaria Ronaldo, Rivaldo, Taffarel, Dunga ou até Edmundo "o animal". O final da história todos conhecem. Dois gols de Zidane, toques de classe e maestria e nosso mascote ganhava um nome francês.

O destino não poderia ter sido mais caprichoso. Sempre fui fã daquele filho de imigrantes argelinos, acompanhava suas grandes jogadas desde quando ele era o maestro Juventino - na adolescência nutria uma simpatia pela Vecchia Signora - e conquistara o mundo em 1996 com o título de Interclubes. Zidane joga de uma forma única atualmente. Altivo, simples, hipnotizante, objetivo. Parece até fácil, mas jogar com a cabeça erguida, sem se preocupar com a bola porém protegendo-a o tempo todo, com ela gravitando próxima a seus pés como se tivesse um imã, é para poucos. Riquelme tem muita classe, mas não possui altivez. Joga carrancudo com os olhos baixos, por vezes preocupado e triste. Zidane , usando uma expressão do filósofo do futebol Neném Prancha, joga como se estivesse chupando laranja. Ou uma doce uva francesa.

Que bom que o Brasil perdeu pra a França! Assim poderemos nos deleitar com mais duas apresentações de Zizou. Não haveria realmente nome melhor para meu cachorro.



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  • Postado em 13:52:01

Au Revoir, Brasilé!

O Brasil está fora da Copa. Apesar de todo favoritismo inicial, da técnica pomposa e acrobática de nossos craques e da pouco fleumática imodéstia da imprensa estamos fora das semifinais do Mundial. Contentemo-nos com a quinta colocação. Para mim não houve surpresa, não criei grandes expectativas mas evitei expor minhas reticências neste blog por suprestição. Não queria ser uma ave agourenta.

Talvez por ser o único refúgio onde o brasileiro se orgulha de entoar sua comprovada superioridade, a atitude quase que generalizada no Gigante Verdelindo do balípodo passa longe da resignação. É necessário justificar, encontrar os culpados, transferir as responsabilidades para não enxergar o óbvio. Para ser o melhor, especialmente no futebol - o esporte coletivo onde o imponderável sempre está presente - é necessário provar a cada jogo, a cada minuto. Explicações não faltam. Logo após a derrota, um amigo [pessoa séria] me confidenciou: "Essa Copa tá comprada! Tem que haver o rodízio. A última Copa foi da Nike esta é da Adidas. Os grandes grupos econômicos se revezam na divisão dos lucros."  Outro rebateu:  "Eles estão milionários. Faltou garra!". Entre as lamúrias, outras justificativas: Falta de atitude, falta de interesse, falta de vergonha na cara, mercenarismo, comodismo, técnico burro.... ad infinitum.

Sejamos justos, compatriotas! Faltou ao Brasil o que mais era necessário: Futebol. Em uma Copa onde as individualidades estiveram sempre a serviço do coletivo, os brasileiros buscaram o caminho inverso. Queriam que o coletivo surgisse a partir do talento individual, como se apenas os brasileiros ainda soubessem jogar bola. Não é mais assim. Os franceses  aprenderam muito bem, como dolorosamente atestamos novamente.

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  • Postado em 12:14:18

30.06.06

Ainda Hoje

ITÁLIA X UCRÂNIA

As Equipes:

Itália: Itália é uma daquelas equipes que nunca surpreendem a gente em Copa do Mundo. Brigam com a imprensa, são execrados pelos críticos, jogam um futebol meia boca, passam sufoco com equipes pequenas, armam uma retranca e... Avançam! Esta Itália segue o roteiro à risca. mesmo com bons talentos no ataque e meio campo (Totti,Pirlo, Camaronesi), eles não convencem, não empolgam mas mostram um time competitivo e concentrado. O ponto alto ainda é a defesa, sólida e segura e todo mundo ainda espera algo dos craques italianos. Precisam produzir algo para evitar o isolamento do ataque - Luca Toni e Gillardino- pois os laterais - seguindo a tradição do futebol da bota - não avançam e o time fica "encaixotado". A solução poderia estar no banco de reservas (Del Piero e Inzaghi) mas estes são tão instáveis quantos os titulares.

Ucrânia: Não acho que a Ucrânia seja zebra. Porque o time possui bons valores individuais e enfrentou equipes fracas até agora [exceto a Espanha, de quem tomou 4X0], o que explica a sua presença entre as oito melhores seleções do mundo mesmo no seu mundial de estréia. Ao mesmo tempo os ucranianos me decepcionam mais que me surpreendem. Esperava muitos mais de seu futebol, não me refiro apenas a Schevchencko, sempre foram um celeiro de craques para a saudosa URSS, entretanto neste mundial apresentam um jogo pouco criativo, nada inspirado e inssosso. O time tem sido lento na retomada de bola, insiste em cruzamentos da zona intermediária e avança com poucos jogadores. Precisarão de um repertório melhor para avançar às semifinais.

O Confronto: As duas equipes precisam melhorar seu jogo. E devem fazer isso. Aposto na Itália não pela tradição, mas por possuir mais opções de jogo - se souber usá-las - mais qualidade no meio campo e conhecer bem o principal jogador adversário. Scheva não terá vida fácil na zaga com seus amigos italianos.



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  • Postado em 23:37:46