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Terça feira, 23 de maio, final da tarde. Passo apressadamente pelo largo do Campo Grande e desço à ladeira em direção da Concha Acústica. Estou um pouco atrasado para um show denominado 'A cor da Cultura',inspirado no CD “Matrizes”, de Cláudio Jorge e Luiz Carlos da Vila, que chegou ao mercado em 2005 com uma seleção de canções marcadas por ritmos africanos. A movimentação nos arredores mostra-se tímida, levando-se em conta a divulgação nos veículos de comunicação e a anunciada participação de atrações como Beth Carvalho, Ilê Ayê, João Bosco, Olodum, Martinho da Vila, Nei Lopes, Luiz Melodia, Riachão, Rita Ribeiro entre outros. O clima meio chuvoso não colaborou, aliado ao fato de ser um dia normal de trabalho - não no meu caso - e o público ocupou apenas metade da capacidade do local.
Do lado direito do palco, um banner gigante anunciava os parceiros da empreitada. Vênus Platinada, canal Futura - transmitia ao vivo -, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, entidades afro e afins. O show, como espetáculo, foi um fracasso. Não apenas pela proposta - excesso de participações sempre é decepcionante, as estrelas cantam pouco - que frustrou a platéia, mas principalmente pela péssima qualidade da equalização do som. A Concha (que pode ser tudo menos acústica) sofre sempre com esse tipo de problema, que foi minimizado nas apresentações do Olodum e do Ilê, devido a força percussiva e o repertório sob encomenda para atrair a participação do público. Mas o pior ainda estava por vir. Com dois apresentadores pouco à vontade, lendo textos de forma pouca espontânea, a quebra de ritmo entre as apresentações era irritante. A impressão inicial que deveria haver um enredo por trás do show, uma linha temática que conduziria o evento para além da proposta musical de apresentação de ritmos negros, esvaiu-se completamente com a apresentação do sambista Riachão. Com a alegria de sempre e figurino característico, o compositor começou a cantar fora de tempo, atravessou e banda, sua presença de palco ofuscou os demais. O que serviu para quebrar a monocórdica e irritante cantoria dos protagonistas Cláudio Jorge e Luiz Carlos da Vila ainda que o antigo sucesso "Cada macaco em seu galho" estivesse totalmente fora do contexto inicial e fosse totalmente dispensável naquele momento.Entretanto,o pior ainda estava por vir.
Durante a aprsentação da "Madrinha do Samba", Beth carvalho, ouve-se um estrondo que vindo da rede elétrica, afetando a iluminação do palco, deixando-o escuro. De imediato, entra em funcionamento o gerador e acendem-se os refletores. O mini-blecaute não havia atingido a rede que alimentava o som, que continuava, mas mesmo assim a cantora Mangueirense se retirou do palco e deixou a banda a tocar sozinha. Constrangimento geral. Para tentar apaziguar a situação, o apresentador [o santo amarense Jorge Portugal, do programa Aprovado!] volta ao palco e, suando bicas, tenta segurar as pontas. Sem muito êxito. O público começa a debandar e após quinze minutos de paralisação, Beth carvalho retorna ao palco da concha com menos que a metade do público inicial. Mais uma música para enganar a galera e encerrar a festa melancolicamente.
"O projeto foi desenvolvido para colocar em prática a Lei 10.639, que prevê o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas grades curriculares dos ciclos fundamental e médio das escolas públicas do Brasil", divulga boa parte da imprensa. Essa é a visão do nosso governo em relação à promoção de igualdade racial. Shows mambembes promovendo inclusão de disciplinas que tratarão a questão do negro como história para-oficial - ao invés de incluí-lo na história oficial- gastar dinheiro com uma bobagem como essa festa (péssima direção de Paulinho Alburquerque), fazer vistas grossas às legítimas reivindicações do povo negro e ignorar como setores da sociedade ainda tratam a questão racial são pecados que não se expurgam com a simples implantação do sistema de cotas.
Curioso é assistir uma matéria na TV sobre o show, em um telejornal da quarta feira. Espetáculo belíssimo, com a participação esfuziante do público, a beleza negra como apaziguadora das diferenças, a cultura negra como pilar sustentador da sociedade moderna. Discurso altivo e vazio no sentido prático. Mas ali pelo menos, o show foi muito bom. Esse eu queria ter assistido.
(Fim da parte II)
Nota do blogueiro: Os shows do Mercado Modelo estão temporariamente suspensos. Devido a uma confusão na sexta do dia 12, havia me retirado neste momento, quando foi disparado um tiro que supostamente vitimou um jovem - informação não confirmada oficialmente - o comando da Polícia Militar vetou a realização de eventos no local.
Sexta feira, 12 de maio de 2006, final da tarde. Perambulando pelo centro da cidade, entre bares e botecos, me deparo com uma manifestação em frente à Delegacia sede da Polícia Civil, na praça da Piedade. Um grupo de aproximadamente 50 pessoas, de diferentes faixas etárias, protesta veementemente com o apoio de um pequeno carro de som, exibindo faixas e bradando palavras de ordem. Por curiosidade, jornalística talvez, me atenho a observar o que acontece ali. Uma senhora arrebata o microfone e inicia um discurso um pouco desarticulado, mas muito emocionado e consistente. "Não podemos ficar calados, a gente sofre demais, somos trabalhadores e não agüentamos mais tanta humilhação", iniciava assim sua assertiva. Relatava então que morava em Águas Claras [periferia de Salvador] e que desde que um policial fora ferido durante uma ação no bairro, aumentaram o número de abordagens agressivas e execuções suspeitas nas redondezas. As faixas exibidas reforçavam o desabafo da senhora, pedindo um tratamento digno e justo e clamando para que a polícia cessasse com algumas prisões arbitrárias, conforme relatou um senhor que aparentava 30 anos. "Chegava do trabalho e fui algemado na minha rua! Apenas quando comprovei que tinha residência fixa e documentos eles me liberaram dizendo que foi mal entendido. Só porque sou preto!". Percebi então, entre a pequena aglomeração, uma tímida faixa do MNU [Movimento Negro Unificado] misturada entre a de outras pequenas representações como conselhos de moradores de locais como Periperi, Águas Claras, Castelo Branco e adjacências. O trânsito então encontrava-se estagnado, e apesar da zuadeira em pleno centro da cidade poucos trauseuntes paravam, como eu, para saber do que se tratava.
A polícia, de dentro da delegacia, também ignorava o protesto. Ninguém aparecia para ouvir diretamente, prestar alguma satisfação ou dispensar atenção. A imprensa local não se fez presente, nenhuma camêra, microfone ou bloquinho de anotações. Não havia nenhuma liderança política, ninguém do poder público ou de qualquer agremiação afro-cultural de expressão artistíca como Olodum, Ilê Ayê, Muzenza ou similar. Mesmo que alguns ali saíssem nesses blocos no carnaval como a jovem Mariana Souza, 23 anos, outra moradora de Águas Claras."Espero o ano todo pelo carnaval. O Ilê é bom demais". E o protesto? "Conhecia um menino que foi morto há uns dois meses, ele era uma pessoa de bem, acho que confundiram ele". Foi a polícia? "É o que comentam. Deram oito tiros e nem levaram a moto dele. Depois levaram pro HGE e disseram que houve tiroteio". Tento conversar mais um pouco mas ela se retrai. "Você é reportér? Não quero meu nome em jornal nenhum". Se afasta de mim e segue em direção ao burburinho próximo ao carro de som.
Sigo em frente. Estava atrasado para o tradicional sambão do Mercado Modelo, reduto freqüentado todas as sextas majoritariamente por jovens da mesma periferia que clama por um tratamento digno e igualitário dos poderes públicos. Mas o Mercado estava muito mais lotado.
(Final da Parte I)
Antes que alguém pergunte, o que seria absolutamente normal, cabe justificar o nome do blog. Na absoluta falta de criatividade para um nome melhor, resolvi manter (ou ressuscitar) o nome de meu antigo fanzine, produzido em conjunto com meus colegas de hospício Vítor Rocha e Flávio Bustani durante o ano de 2003. Justificável, porque a proposta é bastante parecida e ninguém registrou a marca ainda, ou sequer se propôs a tal, afinal ela não vale nada. Dito isso, postarei um texto de meu parceiro Vítor Rocha que está perambulando pelo Velho Continente, intercambiando conhecimento com os europeus. Também está trabalhando em um projeto de cobertura da Copa - www.naestradadacopa.com - e autorizou o uso desta crônica que relata sua passagem pela Polônia. Boa leitura.
Polônia: país inesquecível
Dois extremos de uma mesma história me farão lembrar para sempre da Polônia, país que visitei por sete dias nesta primavera europeia. Foi lá que sofri pela primeira vez uma hostilidade pelo simples fato de ser diferente, de ser preto, em meio a uma universalidade de brancos – louros, louras ou com cabelos escuros. No entanto, foi lá também que senti uma aproximação razoável entre o jeito do ser deste europeu do leste e dos, como eu, oriundos dos trópicos.
A recepção foi, a exceção do preconceito localizado, calorosa e magnífica. Fui recebido por um grupo de amigas que abriram as portas de suas casas e me permitiu conhecer um pouco da cultura deste país encantador. A visita só não foi perfeita por dois fatos pontuais provocados por pessoas que, acredito, não representam o pensamento comum do povo polaco. Apesar disso, gostaria de debruçar sobre eles e levantar alguns questionamentos.
A primeira hostilidade aconteceu num bar – por ironia do destino, decorado com objetos característicos do período comunista vivido pelo país até 1989. Estava numa longa fila para usar o banheiro e quando chegou a minha vez, o único negro na festa, um sujeito branco e corpulento, com cerca de 1.80 de altura, que não estava na fila, disse-me que era a vez dele usar o toalhete. Com toda a educação, respondi que a fila estava atrás de mim. Acompanhado por mais dois amigos também de porte atlético apurado, o sujeito foi reticente. Contra argumentei, mas o efeito não foi o esperado.
“Ponha-se em seu lugar, preto!” – O rapaz não gostou de ser informado de que deveria pegar a fila e revidou com irritação e agressividade num inglês de baixo calão. Com tom de voz elevado, disse que a fila não importava e que ele ira usar o banheiro antes de mim, não interessava o que eu dissesse. Visivelmente contando com a proteção dos dois amigos, ele esperou uma reação igualmente violenta para começar a moer o único negro da festa. Neste momento, referências de engajamento da luta racial, como Malcon X e Martin Luter King, me vieram à mente, mas reagi com a famosa cordialidade brasileira. A agressão gratuita me deixou chocado e cedi à pressão para garantir pelo menos minha integridade física. Respondi com tranquilidade que não precisaríamos brigar por um lugar na fila do banheiro e que ele poderia tomar minha frente.
Quando achei que a situação estava resolvida, fui novamente surpreendido. Um dos amigos do rapaz aproveitou a situação para humilhar ainda mais o preto intruso. Com a cabeça raspada, característica típica dos skin head, partiu para cima de mim e disse que além de esperar por seu amigo, teria que esperar por ele e pelo outro sujeito que os acompanhavam. As palavras do careca soaram como um “ponha-se em seu lugar, preto!”. Mais chocado ainda, não tive reação. Sabia que qualquer resposta contrária resultaria em uma grande briga e seria ainda mais massacrado pelos três sujeitos.
Estatelado, ali sozinho em meio a pessoas que não me reconheciam, não pude ter outra reação senão sair. Saí! Deixar aquela situação para trás me gerou uma revolta e uma indignação interior que subiu deste o estômago até explodir em uma sensação de total desconforto na altura da garganta. O desalento trancou a minha voz e não permitiu nenhum minuto de sono durante a noite na casa da amiga que me recebia. Longa noite.
Auschwitz – Por mais uma coincidência, na manhã seguinte viria a visitar o maior campo de concentração (Death Camp) de todo o período nazi-fascista. Auschwitz nos absorve. Me senti estranho novamente sabendo que estava pisando o mesmo chão onde milhares de pessoas – homens, mulheres e crianças – sofrerem todo o tipo de tortura e foram exterminadas pelo simples fato de serem diferentes, de pertenceram a uma outra etnia. Me senti na mesma posição deles, como tudo aquilo que fizesse parte da história se manifestasse ali numa sensação de arrepio e absorção. Num dos painéis de informação, um texto traduzido do polaco para inglês indicava uma saída, que certamente os rapazes na noite anterior nunca perceberam.
“É fundamental conhecer as atrocidades ocorridas ao longo da história para evitarmos que elas venham a se repetir”. Além dos rapazes, um senhor dono de uma pequena livraria de publicações sobre o local e o período, também me encheu de revolta com uma brincadeira no mínimo infeliz. Olhei alguns exemplares de um álbum de fotografias de Auschwitz (The Residence of Death) e decidi que só iria comprar ao término da visita. O senhor então pergunta a minha amiga em polaco se eu gostaria de ter minha foto naquele mesmo livro onde estavam todos os massacrados e massacradores. Não entendo como uma pessoa pode viver aquela atmosfera e não entender o quanto absurdo é tudo o que passou. E ainda agir com a mesma frieza estupidez.
Como um povo passa por tamanho sofrimento e ainda subsiste ali resquícios de tal crueldade? Auschwitz mostra os blocos de tortura e todos os detalhes do tempo sombrio que durou de 1939 até 1944. Ali, polacos, russos, tchecos e principalmente judeus foram sacrificados. Pode-se conferir as toneladas de cabelo de mulheres e crianças que eram cortados antes de serem exterminadas e eram vendidos por 0,50 marks o quilo para fabricar tecido; pode-se conferir também as quantidades imensas de sapatos, malas com inscrições dos nomes dos respectivos donos, roupas de adultos e de crianças; os quartos e celas onde viviam todos os exterminados pelo regime nazista.
Tolerância – Os maiores meios de atrocidades que um ser humano pode inventar estão, certamente, neste lugar. Uma cela 90 cm. x 90 cm., sem entrada de ar ou luz, com uma porta minúscula na parte inferior ilustram bem a crueldade. Denominada “The cells of the Death Block”, ela abrigava quatro prisioneiros durante a noite depois de todo um dia de trabalho escravo. Eles tinham que ficar ali, todos em pé, durante uma noite inteira. Dá para imaginar, menos um metro quadrado todo fechado com quatro pessoas dentro? Muitos sofreram alí uma morte lenta e gradual.
Todas essas histórias se tornam realmente muito próximas quando visitamos um lugar como esse e torna-se ainda mais incompreensível como ainda existem pessoas que não entendem as diferenças. Fotografias de crianças esqueléticas, de corpos em pele e osso amontoados, de famílias inteiras que foram destruídas pela simples crença fanática de que a Europa, e o mundo, deveria ser povoado exclusivamente por uma raça pura.
Viva a diversidade! Viva as diferenças! “Se alguém salvar uma alma, está salvando o mundo inteiro!”. Espero que essa mudança seja feita diariamente por todos nós, pois tudo isso é mais do que suficiente para perceber que devemos viver em tolerância e com respeito às diferenças, sejam elas quais forem.
Vítor Rocha, viajante.
Site de Auschwitz:
http://www.auschwitz-muzeum.oswiecim.pl/html/eng/start/index.php
http://www.remember.org/educate/intro.html - Tour Vitual.
Vítor Rocha
Alimentava o desejo de fazer um blog a muito tempo. Faltavam disposição, motivação e clareza temática. Na verdade ainda falta um tema. Mas resolvi colocar o ‘bloco na rua’ mesmo sem saber direito sobre o quê escrever. Mas tenho algumas diretrizes. Não escreverei sobre minha vida pessoal - não tenho nada a esconder, mas não tenho nada interessante a mostar – não postarei textos nem matérias antigas nem publicarei artigos de outros sites. O que ficará eternizado aqui então, neste nebuloso e recôndito recinto do cyber–espaço? Matérias jornalistícas, resenhas, artigos, poemas, observações e , vez ou outra, histórias cotidianas transformadas em conto ou simplesmente transliteradas.
Quanto aos temas, haverá de tudo. Principalmente atualidades, imprensa, esportes, música, literatura, cachaça, amores, dores de cotovelo, política, polícia ... Ou seja o principal critério é não ter critério definido. Bons textos de bons amigos serão publicados, com a aprovação destes e o devido pagamento dos direitos de autoria revertidos em pinga. Não acharão aqui referências explícitas a qualquer preferência minha sobre política, esporte ou religião, apesar de não ser difícil encontrar boas pistas para descobri-las . Quem me conhece nem precisará, e isto é irrelevente, afinal o objetivo do blog é informar e entreter e tão somente isso.
Um espaço de discussão, produção e exposição. Para o bem e para o mal.